sexta-feira, 15 de julho de 2011

Tommy Carter is Gone

Aqui vai um conto que eu escrevi no inglês numa prova da vida.
É por esse motivo que está em inglês, e eu, com medo de modificar alguma idéia importante, nunca traduzi. A quem puder ler: divirta-se :)



Something unusual happened to me a few days ago. When I got home from school, there was a letter waiting for me.
Even before I could read it, I sensed a bad feeling (a bad “flavor”, if you will), something that made me feel like a spider trapped inside an end-and size-less maze.
Tommy Carter was not a friend of mine. He was that weird guy, always at the school rooftops, speaking to aliens or so I was told.
He suicided a week ago.
Burned himself to death.
I have no idea of why would he do it - the letter.

“I can’t take it.
Something, INSIDE!
It spoke to me – whispered.
I was being taken, I would fly away.
DO NOT LET IT IN, DO NOT LET IT IN!
Away…
         COME TO PLAY”

Insane. His handwriting changed after the “away”.
After that, I got a phone call. It said “I’m coming, Mr.Grey”, and it turned off.
Mr.Grey. No one else knew about my primary school nickname, not even my parents.
It’s inside. I’m afraid.
Today, I woke at dawn, but it was dark. Someone knocked at my door. I said “come in”. Then the light changed to a feeble, sick, yellow, and I vomited.
I have been struggling with conflicting feelings the whole day.
No one came, but I can feel it.
Tommy Carter didn’t do it right, but I won’t fail anymore.
Fire is its habitat.
I’m going out now.
Do not answer it.
See you later.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Fragmentation - Threshold

We are fragmented
Clinging on to a concept known as how
Drifting through dimensions
In a place which we call now

Simply unaware

Of what goes on above beyond and before
Behind us fly the ragged fragments
Of what should have been much more

Been much more

So unsure
Opening doors

Separate entities in ebb and flow

Fragmentation
Diverse quantities behind us show
Fragmentation

We thought that we would live forever

Now we're mortals like the rest
We were lion hearted fighters
Who were never put to the test

Can't foresee the end but it's round the bend

And it's putting us to flight
I would go with you if you asked me to
And you're frightened that I might

I just might

Souls in flight
Just not right

Separate entities in ebb and flow

Fragmentation
Diverse quantities behind us show
Fragmentation

Half of a fantasy but I never got

Half of the fanta see? but I never got
Half of the fans to see but I never got
Half of the van to sing but I never got
No I never ever never got
Half of the fantasy but I never got
Half of the band to see but I never got
Half of the fans to sing but I never got
Half of the royalties no I never got

It's time to reconvene the wolf pack

And gather these disparate parts
And to exorcise the maniac
And separate these scars

Let my blood flow fast

And neutralise the yearning in my heart
Let my spirit fill with energy
Like its waiting for the start

For the start

A broken heart
Torn apart

Separate entities in ebb and flow

Fragmentation
Diverse quantities behind us show
Fragmentation

Bravo!, Matheus - parabéns, quer um biscoito?

É madrugada, e oficialmente quarta-feira.
Este post é especial porque ele está sendo redigido antes da quarta-feira em si começar, antes de todo o maquinário da rotina entrar em ação, o que me permite analisar minhas expectativas para o dia de hojamanhã.
Ontem foi o primeiro dia de aula efetiva no icbeu (na segunda, eu tive um pouco de aula, e, depois, prova), e eu tenho que dizer: é uma rotina cansativa. Eu tive que me beliscar para saber se era terça mesmo ou se a quarta tinha invadido de repente o campo da outra. Depois de um dia mega-cansativo, ao voltar para casa - de ônibus, note isso - começou a, advinhem só, CHOVER! Perfeito, cansado e sujo na chuva :)
Ok, ok, cheguei, (a chuva parou imadiatamente após eu pôr os pés dentro de casa), tomei banho, fiquei relaxando, almocei, ta-ta-ta. À uma da tarde, eu lembrei que tinha de comprar a Bravo! do mês - que, por acaso, está muito boa -, então eu angariei energias e fui-me andando para a banca de revistas.


Fechada.
Ok, tudo bem, consegui me controlar e me dirigir ao outro lado da rua, onde há uma farmácia. Perguntei à moça do caixa sobre a hora em que a banca abria. "Duasimeeeeia", com aquela fala arrastada de sono e pouca vontade. Voltei para casa e esperei dar o horário. A banca fica há uns 10min daqui de casa, então cansa sim - pelo menos para um gordo sedentário que nem eu -, entendem? Eu poderia ter ficado em casa!
Pois bem, minha mãe chegou em casa, e se ofereceu para me levar para lá no caminho de volta ao trabalho, com a condição de que eu voltasse sozinho. Aceitei, e fui.
Quando cheguei lá, a banca estava aberta (quase levantei as mãos aos céus nessa hora - coisa que eu acabei fazendo depois, mas de raiva).
Minha mãe partiu e eu atravessei a rua para comprar a bendita revista.
Eu não tinha certeza do preço da revista, então eu trouxe comigo catorze reais, uma de dez e duas de dois. Levei a revista ao caixa, admirando a capa, vi o preço - 12 reais -, coloquei a mão no bolso, já esperando pelo grandioso momento de ir embora e poder lê-la, tiro o dinheiro e o conto.

Dois, dois, cinco...
PERAÍ!
Dois, dois, CINCO???
Não existem palavras que descrevam a minha frustração naquele momento.
Eu falei rápido para a mulher do caixa algo como "voltopracasarapidaoepegoodinheironaodeixaninguemcomprarplizzzzz".
E lá fui eu, andando para casa, pegando três reais na minha gaveta, somando e ressomando na minha mente (nove mais três é igual a doze mesmo, TEM CERTEZA?), quando, quase chegando de volta à banca, advinhem o que acontece.
Chuva. Maldita chuva enviada pelo inferno para me azucrinar!
Ok, comprei a revista (com plástico envoltório, ainda bem) e fui correndo, quase pude ouvir crianças gritando "run, Matheus, run!".
Ok, tudo muito bacana, você, leitor, deve estar rindo pra caramba de mim agora, né?
Pois, o que começou como uma chuvinha engrossou e se tornou uma chuva encorpada, com vento e muita água (um tóro dos brabo).


Resultado: andei a distância da minha casa até a banca cinco vezes, peguei chuva e fiquei encharcado, mas consegui salvar a revista, que só chegou a se molhar em alguns poucos pontos (em algum momento da corrida, a sacola de plástico se tornou fútil, então eu só a joguei numa lixeira, deixando a revista apenas com o plástico do envoltório para se proteger).

E aí está a dita cuja, podem admirar, porque ESSA É SÓ MINHA E AI DE QUEM TOCAR NELA!




Afinal de contas, eu passei por desventuras dignas de uma quarta-feira para comprá-la, então me perdoem se eu soar um pouco egoísta.

ENFIM! É por isso que eu estou ansioso para saber como vai ser o dia de hojamanhã (chega desse neologismo, ninguém riu antes, ninguém riu agora).
Boa noite, e boa quarta-feira :)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre a Segunda-Feira

Bom dia, leitores do blog - eu sei que vocês existem por causa das estatísticas u.u
Primeiramente, COMENTEM!
Sério, dá uma sensação de dever cumprido, de ter feito algo útil quando vocês (no caso, apenas Hannah) comentam, então, comentem.
Hoje foi oficialmente o primeiro dia das minhas """"férias"""" - notem as 16 aspas aí -, e eu parti de manhã cedo ao curso de férias do Icbeu. Fiz prova, voltei de ônibus, tomei um banho, e acho que agora eu vou me preparar um almoço giga-norme, de tanta fome que eu tenho.
Ontem eu assisti "O Nevoeiro", baseado no livro de Stephen King. É uma das melhores adaptações, btw, então eu recomendo bastante.
Mas isso não é o que eu quero falar. Acho que só preciso saber o meu rumo no mundo - ai, que clichê.
A última semana foi um Inferno. Escola pela manhã e pela tarde, tantas coisas para fazer, revistas para comprar, livros para ler e estudar. Gee, eu acho que ainda estou meio traumatizado com aquilo *treme treme*
Hoje eu vou ver Shawshank Redemption, também baseado num livro de SK, então é bem possível que eu durma às 3 da manhã de novo, como fiz ontem!
Ah! No meu curso de inglês tem três canhotos, inclusive eu. 3 em 5, sinto-me até maioria!
É isso, já não tenho mais nada a falar, a partir de hoje, para mim, os dias serão idênticos uns aos outros: acordar, estudar, dormir. A semana eu vou dividir entre Quarta-Feira e RESTO.
O nome do blog explica bem isso, né? Quarta-Feira para mim é um dia importante.
Sabem de algo? Divulguem meu blog, eu faço duplo-post na quarta dessa semana \o








como se isso fosse fazer alguém divulgar esse blog

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sobre essa semana

Oh yeah, double post, people!
Para quem quer ver o conto de hoje, que devia ter sido escrito ontem, mas por preguiça jogada de marketing, para deixar vocês interessados no que eu talvez viesse a escrever, eu acabei não escrevendo.
Este texto é basicamente um desabafo, então, se não te interessar, dê a meia-volta e desapareça daqui, seu inútil!
Eu faço terceiro ano, e essa semana vem sendo especialmente puxada para mim pois é a última semana antes das férias, e, adivinhem só, a escola resolve trazer professores do SAS (Sistema Ari de Sá) para dar aulas para a gente pela manhã, sendo que ainda temos aulas pela tarde, ou seja, temos que passar o dia todo na escola.
Teimoso do jeito que sou, domingo, eu assistía a um filme russo e, pelo fato do filme ser PÉSSIMO eu acabei prestando mais atenção nas falas das personagens do que no próprio filme. Resultado: estou aprendendo russo pela internet. Riam se quiserem, mas é uma língua muito legal e eu sei contar até um milhão e você NÃO SABE xP
Afora disto, esta vem sendo uma semana especialmente difícil para mim também por razões mais pessoais do que um simples auto-curso de russo.
Acho que... As coisas nunca pareceram tão confusas (vou usar um artifício da minha amiga Hannah aqui e ser o mais confuso possível, e ainda assim manter a poética), e eu venho me sentido meio para baixo, borocoxô, ou seja lá como se escreve essa merda. É cansaço? Não. Eu tenho insônia crônica desde o começo da minha existência, então essa semana não está me sendo sonolenta. É depressão? Acho que não, é mais uma onda de tristeza repentina. Vejo as pessoas falando com todo mundo e tal, e eu sei que não sou um cara chato/ uma má pessoa (incorporando Halneik agora), mas às vezes eu penso que 70% das vezes que alguém se aproxima de mim é para pedir atividade ou ajuda. Eu nunca neguei, e até gosto de ajudar as pessoas, mas, ah, por que eu travo em lugares cheios de pessoas? Mesmo em grupos que obviamente não me rejeitam, eu não consigo falar.
Odeio essa minha maldita cabeça de merda às vezes.
Vou falar sério agora.
Queria tempo para pensar sobre isso, de fato, mas já são o quê, onze e quarenta? Em breve eu vou ter que me jogar na cama e forçar um sono que não existe.
Às vezes eu queria simplesmente dormir e acordar só na quarta-feira que vem.
Quiçá um dia isso acontece, não é mesmo?

E o dia nasceu tão belo...

 Quando amanheceu a quinta-feira daquela semana (para muitos, apenas mais uma semana), todos agiram como sempre agem: levantaram da cama, tomaram banho, se arrumaram, engoliram café, e seguiram seus rumos.
Se um desocupado olhasse pelo céu (desocupado, pois só um desocupado perderia tempo encarando céu àquela altura da manhã), perceberia algo diferente.
Não algo novo, mas algo que fizera falta na última semana.
Naquela quinta-feira, o céu amanheceu azul.
Azul e sem nada de especial. Apenas o bom e velho sol brilhando por entre poucas nuvens num céu que era de um tom azul nada mais do que o comum.
E o que havia de tão especial naquela alvorada? O fato de ser o primeiro nascer do sol azul em dias.
Começara uma semana antes, no que fora chamado de “alvorada sangrenta”, em que o dia nascera vermelho e escurecido, com tons de sangue por todo lado.
O efeito havia sido verdadeiramente devastador: era o fim do mundo para alguns, era a ira da natureza para outros. Mas havia algo em que todos concordavam: a humanidade tremia de medo sob um céu escarlate.
Escolas fecharam, hospitais lotaram de hipocondríacos. As ruas vazias e rubras pelo céu. Mendigos gritando sobre o julgamento divino.
Vôos cancelados. Caos. Queda da bolsa de valores. Presidentes apressados, inteligências postas contra a parede.
Jornalistas em polvorosa.
Mas a noite veio sob o mesmo véu branco da lua, como se nada houvesse jamais se passado sob aquela estratosfera, e o povo pôde dormir em paz, sonhando com o azul do céu no dia seguinte.
Não é preciso dizer que o dia seguinte foi igualmente desolador.
A coisa assumiu um caráter concreto. Não havia sido um incidente nem isolado, nem passageiro. Os saques começaram. Estupros, assassínios, incêndios, roubos.
O clima de fim do mundo nunca havia sido tão sério.
Naquele dia, tudo o que as pessoas queriam era se verem livres daquele céu, mesmo que aquilo significasse a noite. A noite, pelo menos, ainda era normal.
Começou a chuva de raios, como varas pelo céu magenta, cortantes e assassinas.
Fogo e morte por todo lado, o céu vermelho encarava a todos com seu único e terrível olho de conjuntivite.
Suicídio em massa.
Cultos religiosos inteiros se reuniram como irmãos e puseram fim às suas vidas.
Caos era a palavra de ordem, e caos era que as pessoas queriam, e caos era o que as pessoas tinham.
A noite nunca veio. A humanidade caminhava ao seu fim, e os jornais só apareciam espasmodicamente, quando mostravam algo.
“Conflitos no oeste da Ásia se intensificam”, “Golpe militar nas Antilhas!”, “Morre o presidente da Grécia por atentado da esquerda”.
“EUA declara estado de sítio: presidente renuncia ao cargo após a morte de 27 dos 50 governadores”.
Essas foram as últimas notícias divulgadas antes de todas as linhas de rádio caírem por falta de manutenção. Nesse mesmo dia, os relógios de todo o mundo começaram a andar para trás eternamente. Sem distinção entre dia e noite e sem relógios para olhar as horas, os sobreviventes dos três dias de terror só tinham a opção de ser esconder o máximo possível, pois os ataques de vândalos eram constantes.
Com o tempo, uma espécie de ordem foi formada: gangues de bairro sobreviventes formaram grupos de controle, estabelecendo territórios próprios em cidades-fantasma. As gangues cresceram em números, em pouco tempo, até o ponto de entrarem em guerra entre si, por comida, água, território. O dinheiro não valia mais nada, e a única diferença entre as pessoas era apenas de força, como a lei das selvas.
Todo o pandemônio instaurado nos primeiros 6 dias da semana de sangue foi completamente cessado na verdadeira alvorada sangrenta, a quarta-feira de que ninguém jamais esqueceria.
As nuvens amarronzadas e doentes se aglomeraram pelos céus, tapando o sol vermelho por completo.
Pessoas saíram de casa e olharam esperançosas pelas janelas, esperando pela chuva, esperando pelo perdão, pela clemência.
E a chuva começou. Mas não era água que caía das nuvens doentias.
Era sangue.
A chuva foi tão forte e tão devastadora que alagou cidades inteiras ao redor do globo, a tal ponto que, se alguém pudesse ver a Terra do espaço, veria apenas um globo sangrento, vermelho até o núcleo, coberto e contaminado pelo sangue sujo do céu.
O caos nunca teve tanto peso quanto naquele momento. Pessoas enojadas corriam pelas ruas e tentavam se esconder, mas o sangue era denso e coagulava na pele. O sangue não era absorvido pela terra, o sangue ficava.
A Terra estava doente, e havia uma doença no ar. Uma doença letal, que espalhava por tudo que existia e sentia, uma doença que lhe fazia morrer enlouquecido, com sangue jorrando pela sua boca, sangue e vômito.
Essa doença matou todo o restante da população da Terra em menos de um dia, e os que sobraram jamais se esqueceriam do viram depois.
O céu e a terra se abriram para a batalha mais importante da existência, a única batalha que importava. A batalha que decidiria o futuro da Terra.
Por todos os vivos e mortos, a batalha acabou.
E, no dia seguinte, o dia nasceu azul claro como nunca e como sempre fez.
O dia nasceu tão belo, e ninguém ligou.




Será possível que isso acontece toda quarta-feira?

domingo, 3 de julho de 2011

A Noiva e o Olvido (na beira do esquecimento)

A Estrela
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

                 Manoel Bandeira, A Estrela




Eu era uma mulher madura.
É, essa é a melhor expressão para me definir, definir uma mulher fria e cáustica, que, mesmo ao fim da vida, ainda continuava nas mesmas teimosias idiotas.
Sim, eu era uma mulher madura, ou pelo menos achava que fosse.
Meu nome é Otávia, e eu estou agora com meus 24 anos, jazendo fria no chão de uma igreja vazia, sem ninguém para velar meu corpo.
Que ironia, justo eu, jogada assim, com meu vestido de noiva impecavelmente arrumado, como se esperando que sua dona ainda levantasse. Não haverá nenhuma marcha nupcial para você, amiguinho. Nem mães e tias chorosas, sobrinhos entediados, amigos em frenesi. Não para você.
Sinceramente, para uma mulher como eu, hoje deveria ser o pior de tudo, minha morte, minha farsa descoberta, minha vida se esvaindo assim, sem piedade, e sem ninguém que se importasse comigo para pelo menos dizer “lá se vai Otávia, foi e foi, e que nunca volte”.
Todos foram embora, eu estou aqui sozinha, ainda no chão da igreja, imóvel e suspensa nesse segundo eterno.
Como eu disse, eu fui uma mulher madura, pelo tempo que me foi dado, e desperdicei minha vida nisso.
Nasci a 24 anos numa madrugada de domingo, após dezenove horas de parto, no dia 25 de novembro, que calha de ser hoje – morrer no aniversário é um privilégio de poucos.
Como muitas meninas da minha cidade, eu estudei num colégio católico só para meninas, onde havia uma freira carrasco que dominava nossas vidas quase que por completo. Era horrível: bastava um escorregão, uma palavra fora de hora, para que fôssemos mandadas ao campanário ficar de joelhos rezando debaixo do sino. E ainda havia as felizes ocasiões em que ela nos batia com a régua e nos mandava ajoelhar em milho. Cruel, eu sei, mas Irmã Rita ensinava com eficiência a um monte de garotinhas a dura e absoluta lei dos homens: não há lugar no mundo para as mulheres fracas, e disso eu sempre soube muito bem.
Foi na faculdade que eu conheci Caio, meu futuro ex-noivo.
Nós dois gostávamos das mesmas coisas e fazíamos o mesmo curso, administração. Passeávamos nos parques, andávamos por ai, íamos ao cinema.
Era como se o mundo houvesse se resumido a nós dois – e nós não dávamos a mínima para isso. Ah, era só eu e você, Caio.
No terceiro período, você conheceu a Ana, e a pobre Otávia foi deixada para trás.
Oh, Caio, ainda não sei o que você viu nela! Vocês só brigavam, o tempo todo! Era como se um vivesse para contestar o outro.
De repente, você passou a falar só dela o tempo todo, e foi como assistir a uma comédia romântica pelo lado de fora: era você e ela, você e ela, o casal antagônico, e eu, a megera largada, ferida, e abandonada.
Deus sabe muito bem de todas as minhas contas de boas e más ações em vida, e Ele também sabe como eu reagia àquilo. Como eu disse antes, fui uma mulher adulta, ou pelo menos achava que era, e passei a agir como tal.
“Ana” virou palavra proibida entre nós dois, e você passou a ficar cada vez mais incomodado com a minha presença, e eu não podia fazer nada para acabar com isso de vez, havia, portanto, incorporado meu papel de megera, a mulher madura e auto-suficiente que Irmã Rita tanto lutou para construir, a mulher madura e auto-suficiente que está aos poucos morrendo por dentro.
Caio me escapava rapidamente por entre os dedos, e eu tinha que tomar uma atitude, será que alguém me compreende? Será que alguém poderá entender que o que fiz, fiz por amor? Será?
Pois bem, mentir no leito de morte é uma das piores coisas que alguém deve fazer. Eu confesso: fingi estar grávida.
A situação ficou muito tensa entre nós, você estava desnorteado. “Aborto?” “Nem pensar, sou nascida e criada numa família católica“. “Adoção?”, “ESCUTE, CAIO, EU QUERO ESSE BEBÊ, E VOU CRIÁ-LO, QUEIRA VOCÊ OU NÃO!”.
Acho que senti uma pitada de resignação da sua parte nesse dia. Quem sabe você estivesse decidido a criar o bebê comigo, esperando que pudesse me amar de novo, e dar ao nosso pretenso filho uma família decente. Depois daquela noite no café em que eu saí correndo e chorando enquanto você me gritava, eu a vi. Ana, a maldita prostitutazinha.
Ela estava olhando a situação de longe, esperando que eu fosse embora para poder colocar suas patas em você. Mas eu não ia deixar, a vitória seria minha.
Claro, na hora, ninguém poderia prever os acontecimentos porvir.
Você me pediu em casamento, depois de duas semanas de protelação, e eu aceitei, radiante. Como já deve ter dado para perceber, a data marcada foi 25 de novembro do mesmo ano, meu aniversário.
O pedido aconteceu julho, enquanto a concepção ocorreu em junho, então, no casamento, já teriam se passado cinco mesmo, não é?
No começo eu me preocupei com aquilo, mas, Caio, a minha barriga cresceu. Ela cresceu, e era seu filho, Caio, seu único e adorado filho, filho da sua única e adorada mulher.
O tempo passou, e a Ana continuava assediando você, apesar do nosso filho estar visivelmente crescendo nas minhas entranhas – oh, filho do nosso amor, Caio, do nosso amor. Eu precisava fazer algo.
Quando eu decidi tomar ação, foi anteontem, depois do que aconteceu na semana passada.
Ela veio ao nosso apartamento, aquela lá, teve um ataque. Começou a gritar que eu era uma farsante, que exigia teste de paternidade, que tinha certeza de que aquele bebê podia ser tudo, menos fruto do nosso amor – só nosso.
Você ficou bastante perturbado com aquilo e pediu um teste de paternidade, como ela havia sugerido. Mas que ofensa! Meu próprio noivo, pai do meu filho, exigindo um teste de paternidade!
Mas eu o fiz mesmo assim, pois eu acredito do fundo do meu coração que esse bebê é meu e seu. Porém isso não era suficiente.
Eu precisava dar um fim naquela Ana.
Por isso, anteontem, eu fui até o apartamento dela. Ela me recebeu com gritos, e me chamou para ver uns papéis que você supostamente havia dado para ela, Caio. Os papéis eram o teste de paternidade, e ela gritava que eu não estava grávida, que era tudo um embuste, que era uma farsa, que eu estava mentindo E QUE O FILHO QUE, AINDA HOJE, NA MINHA MORTE, VIVE E RESPIRA EM MIM, NÃO EXISTE!
Era uma falsificação barata, Caio, oh, Caio, era uma falsificação mal-feita.
Eu mostrei para aquela vadia dissimulada o que ela merecia, e esfaqueei ela, esfaqueei ela o máximo que pude, em nome do nosso amor, Caio.
Do nosso amor.
NOSSO AMOR.

COMO VOCÊ PÔDE ME ABANDONAR, CAIO?
COMO?
Eu fiquei lá esperando como uma idiota por você.
Esperei por uma hora, até descobriram aonde você estava, Caio.
Você estava estirado na frente do prédio dela.
Você havia se jogado da sacada, Caio.
Eu dei minha pureza por você, eu fiz tanto por nós, e você se jogou por ela? Você...
Você está me esperando, não está?
Assim que isso acabar, você vai estar na porta da igreja, todo galante

você vai


você




Todos foram embora e disseram que a polícia vem logo
É para ver nosso casamento, Caio, de tão lindo que é


lindo

é lindo

Eu não consigo me mover, eu caí no chão e está escuro.
Eu estou esperando por você, mas eu só vejo uma estrela.
Só vejo uma estrela, tão longe, e tão fria.
Vejo você, Caio.
Vejo você.

Eu estou desparecendo.


esquecendo



morrendo



eu










Eu te amo.