Naquela cidade,
Naquela rua,
Naquela casa,
Naquele quarto,
Naquela cadeira,
Senta um poeta
Escreve, escreve,
Ninguém lê, mas escreve
Escreve por escrever
Tira os tormentos do coração
Cura a alma e afasta os maus pensamentos
- talvez até cure a dor-de-cotovelo
Naquela mesa,
Papéis
Ora, papéis!
Muitos, jogados
Frases de amor
Frases de ódio
Papéis!
Palavras mudas em constante mudança
Histórias inacabadas
No coração de um poeta
Moram todas as desgraças do mundo
E todas as belezas também.
terça-feira, 17 de julho de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Aquele dia
Por incrível que pareça, os dias começam a se empilhar, um em cima do outro.
Um dia desses pensei que fosse quarta - e não era quarta? Não sei mais.
Só sei que, naquele dia, era como se eu tivesse recebido uma nova carga depois de uma longa temporada usando a mesma cansada e velha bateria recarregável.
Dava para o gasto? Talvez, nem sempre.
Na rua, descia uma visão tão estranha que, se pudesse ficar o dia inteiro analisando, ainda assim deixaria um quê de mistério.
Há um charme na dúvida, um charme na ausência de certeza, algo ao mesmo tempo lindo e perigoso, horrível e maravilhoso.
Foi como me senti.
Passou por mim como quem segue seu caminho, mas eu sei que não foi verdade - pelo menos gosto de pensar que não foi.
Foi tomado pelo medo, metade sim, metade não, num sonho meio louco de procedência duvidosa. E não são todos assim?
Tive medo.
Mas mais medo por deixar a visão fugir, ir embora, desaparecer, do que da própria figura.
Virei-me.
"Sabe dizer que horas são?", perguntei, mas nem certeza de que falei a frase inteira tenho.
Talvez, vendo minha mímica de relógio invisível, respondeu: "Umas quatro da tarde".
E sorriu.
Não era um sorriso perfeito, não, de longe.
Era um sorriso real.
E eu poderia passar eternidades banhando naquele sorriso.
Eu sorri de volta - que mais poderia fazer?
E foi embora.
Não me culpo por não ter feito nada.
Às vezes fantasio um pedido, "Vamos tomar um café?", talvez, mas sempre que penso nisso lembro das minhas pernas molengas e do meu coração batendo rápido, e da minha completa falta de palavras.
Lembro da meu completo e absoluto vazio de mente, nunca sem saber o que dizer.
Mas eu sempre vou guardar aquele pedaço de conversa comigo.
Sempre vou lembrar do dia em que vi o amor da minha vida passar, e só conseguir pedir as horas para ele.
Um dia desses pensei que fosse quarta - e não era quarta? Não sei mais.
Só sei que, naquele dia, era como se eu tivesse recebido uma nova carga depois de uma longa temporada usando a mesma cansada e velha bateria recarregável.
Dava para o gasto? Talvez, nem sempre.
Na rua, descia uma visão tão estranha que, se pudesse ficar o dia inteiro analisando, ainda assim deixaria um quê de mistério.
Há um charme na dúvida, um charme na ausência de certeza, algo ao mesmo tempo lindo e perigoso, horrível e maravilhoso.
Foi como me senti.
Passou por mim como quem segue seu caminho, mas eu sei que não foi verdade - pelo menos gosto de pensar que não foi.
Foi tomado pelo medo, metade sim, metade não, num sonho meio louco de procedência duvidosa. E não são todos assim?
Tive medo.
Mas mais medo por deixar a visão fugir, ir embora, desaparecer, do que da própria figura.
Virei-me.
"Sabe dizer que horas são?", perguntei, mas nem certeza de que falei a frase inteira tenho.
Talvez, vendo minha mímica de relógio invisível, respondeu: "Umas quatro da tarde".
E sorriu.
Não era um sorriso perfeito, não, de longe.
Era um sorriso real.
E eu poderia passar eternidades banhando naquele sorriso.
Eu sorri de volta - que mais poderia fazer?
E foi embora.
Não me culpo por não ter feito nada.
Às vezes fantasio um pedido, "Vamos tomar um café?", talvez, mas sempre que penso nisso lembro das minhas pernas molengas e do meu coração batendo rápido, e da minha completa falta de palavras.
Lembro da meu completo e absoluto vazio de mente, nunca sem saber o que dizer.
Mas eu sempre vou guardar aquele pedaço de conversa comigo.
Sempre vou lembrar do dia em que vi o amor da minha vida passar, e só conseguir pedir as horas para ele.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Laura, as covas, os mortos e os fogos
No meu sonho, eu estou correndo em meio à névoa, perdida na escuridão.
Nele, não há nem chão, nem céu, nem nada.
Só há aquela névoa e o escuro.
A tão-presente escuridão.
Eu tropeço em algo e caio. Eu não caio no chão. Eu caio. E é cair que me mata.
Eu estou caindo, ainda; minha mente grita que o chão já deveria haver aparecido, que isso não faz o menor sentido, que uma queda não duraria tanto, que...
Eu aterrisso com um estrondo no chão duro de terra. Pela primeira vez no sonho, eu posso ver alguma coisa, e a primeira coisa que eu noto é onde eu estou.
É um buraco escavado retangularmente na terra, nem muito fundo, nem muito raso.
Eu vejo algo de relance, um brilho e uma sombra, algo de vivo naquela mórbida paisagem, e eu sei bem onde estou, pois já estive aqui antes.
É uma cova. E aquele é o coveiro, e ele vai me enterrar viva, e eu vou ficar para sempre sozinha nas frias entranhas da terra.
A primeira pá de terra cai do céu como um ataque aéreo na segunda guerra mundial.
A segunda, a terceira, a quarta, a quinta, e eu estou lá, deitada no chão, até que decido me levantar e sair daquele túmulo, e começo a escalar as paredes de terra da minha prisão.
Quando finalmente chego na surperfície, o coveiro já parou de tapar a cova com areia, e está olhando para mim com olhos frios e úmidos.
Ele era um homenzinho encurvado, baixo, um pouco gordo, mortificamente branco, como os mortos que ele enterra todo dia.
Ele diz alguma coisa incompreensível, aquele ar rançoso e arrastado naquela boca enegrecida. Eu não vi nenhum dente lá. Também não acho que houvesse. Depois volta a tapar o buraco, apesar de já não haver nada alem da névoa lá.
Eu começo a correr de novo, mas, dessa vez, eu sei onde estou. É um cemitério, e eu tento achar o portão de entrada, perdida na escuridão - mas a idéia de voltar e perguntar ao coveiro tanto me assusta quanto me enoja. Eu entro numa ala cheia de túmulos antigos, e me vejo cercada por todas aquelas cruzes e flores, e anjos, e epitáfios que nem sei para onde olhar.
Eu olho para um buraco na terra. Dentro dele, um caixão destruído, sem cadáver.
Eu me pergunto se o coveiro andou enterrando algum outro vivo por aqui, mas eu acho que não. Eu vejo e tenho certeza.
Corro.
Minha sombra se estende pelo chão como se se arrastasse no mesmo passo que os mortos dali.
Os mortos que saem à noite.
Os mortos que saem à morte.
Eu corro. Por dimensões irreais. Pesadelos incontidos.
Corro, e, por mais que eu corra, não chego em lugar nenhum.
A voz do coveiro-caveira - por que eu pensei nisso? - me chega pelas costas, escala pelos ombros e lambe os ouvidos, putrefata.
"E que mais adianta correr.
"Que a história restaura de uma vez.
"E o grito suave da meia-noite,
"Ergue-se como todos os mortos, os corpos, e os fogos.
"Ergue-te"
Ergo-me e abro os olhos.
Os fogos estão lindos este ano.
Nele, não há nem chão, nem céu, nem nada.
Só há aquela névoa e o escuro.
A tão-presente escuridão.
Eu tropeço em algo e caio. Eu não caio no chão. Eu caio. E é cair que me mata.
Eu estou caindo, ainda; minha mente grita que o chão já deveria haver aparecido, que isso não faz o menor sentido, que uma queda não duraria tanto, que...
Eu aterrisso com um estrondo no chão duro de terra. Pela primeira vez no sonho, eu posso ver alguma coisa, e a primeira coisa que eu noto é onde eu estou.
É um buraco escavado retangularmente na terra, nem muito fundo, nem muito raso.
Eu vejo algo de relance, um brilho e uma sombra, algo de vivo naquela mórbida paisagem, e eu sei bem onde estou, pois já estive aqui antes.
É uma cova. E aquele é o coveiro, e ele vai me enterrar viva, e eu vou ficar para sempre sozinha nas frias entranhas da terra.
A primeira pá de terra cai do céu como um ataque aéreo na segunda guerra mundial.
A segunda, a terceira, a quarta, a quinta, e eu estou lá, deitada no chão, até que decido me levantar e sair daquele túmulo, e começo a escalar as paredes de terra da minha prisão.
Quando finalmente chego na surperfície, o coveiro já parou de tapar a cova com areia, e está olhando para mim com olhos frios e úmidos.
Ele era um homenzinho encurvado, baixo, um pouco gordo, mortificamente branco, como os mortos que ele enterra todo dia.
Ele diz alguma coisa incompreensível, aquele ar rançoso e arrastado naquela boca enegrecida. Eu não vi nenhum dente lá. Também não acho que houvesse. Depois volta a tapar o buraco, apesar de já não haver nada alem da névoa lá.
Eu começo a correr de novo, mas, dessa vez, eu sei onde estou. É um cemitério, e eu tento achar o portão de entrada, perdida na escuridão - mas a idéia de voltar e perguntar ao coveiro tanto me assusta quanto me enoja. Eu entro numa ala cheia de túmulos antigos, e me vejo cercada por todas aquelas cruzes e flores, e anjos, e epitáfios que nem sei para onde olhar.
Eu olho para um buraco na terra. Dentro dele, um caixão destruído, sem cadáver.
Eu me pergunto se o coveiro andou enterrando algum outro vivo por aqui, mas eu acho que não. Eu vejo e tenho certeza.
Corro.
Minha sombra se estende pelo chão como se se arrastasse no mesmo passo que os mortos dali.
Os mortos que saem à noite.
Os mortos que saem à morte.
Eu corro. Por dimensões irreais. Pesadelos incontidos.
Corro, e, por mais que eu corra, não chego em lugar nenhum.
A voz do coveiro-caveira - por que eu pensei nisso? - me chega pelas costas, escala pelos ombros e lambe os ouvidos, putrefata.
"E que mais adianta correr.
"Que a história restaura de uma vez.
"E o grito suave da meia-noite,
"Ergue-se como todos os mortos, os corpos, e os fogos.
"Ergue-te"
Ergo-me e abro os olhos.
Os fogos estão lindos este ano.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Epitaph
i
the night follows - sleepless
the wind blew - sightless
clumsily, as i cross the door
regret the vanity - "oh, no!"
abstain from answers - wordless
calling out the dead - voiceless
merely, as i kiss the floor
taste the blood - let us flow
clench my teeth - worthless
lie awake forever - ceaseless
ii
to live and not to live
to die and never die
to face and run away
to stand and fall apart
let it be a warning to all
this epitaph of mediocrity
the night follows - sleepless
the wind blew - sightless
clumsily, as i cross the door
regret the vanity - "oh, no!"
abstain from answers - wordless
calling out the dead - voiceless
merely, as i kiss the floor
taste the blood - let us flow
clench my teeth - worthless
lie awake forever - ceaseless
ii
to live and not to live
to die and never die
to face and run away
to stand and fall apart
let it be a warning to all
this epitaph of mediocrity
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Simples assim
Peguei-me pensando de novo, nesses últimos dias. Meio melancólico, talvez, mas pensando mesmo assim.
Não é como antes, felizmente.
Sinto algo novo... saudade?
Saudade genuína?
Talvez. Não saberia dizer.
Talvez seja algo vindo daquela minha incurável busca por um preenchimento de vazio, que uma vez esteve cheio de pessoas, de amizade, companheirismo, e agora eu só tenho solidão.
Aos poucos leitores do blog, vocês me conhecem, não é? Acho que, se vocês me leem, é porque, no mínimo, se importam comigo... Onde estão vocês?
O que acontece é o que já aconteceu tantas vezes, mas diferente, dessa vez.
Desde que eu assumi como gay - primeira vez que menciono isso aqui, não é? -, eu venho sido abatido por um sentimento esmagador e completamente implacável de que eu nunca vou encontrar ninguém que goste de mim, ou alguém que sobreviva aos meus mil e um parâmetros - mea culpa, inteiramente, eu sei disso, mas, fazer o quê? Se não fosse assim, certamente eu seria uma pessoa completamente diferente.
Preciso que alguém me diga que isso não é verdade... Que existe alguém por aí com meu nome escrito nas costas, sei lá, alguém que tenha interesse não necessariamente no que me interessa, mas que tenha paixão por isso, e que adore conhecer mais do que somente o mínimo, o pouco.
É demais?
Aí eu me olho no espelho e sinto aquela força crescente e de tanta aflição tomar conta de mim, e eu perco a vontade de fazer as coisas.
Não pense que eu estou pensando "ah, todos os meus amigos me abandonaram", não, não.
Se alguém abandonou alguma coisa fui eu.
Mea culpa, de novo.
Eu não sei... Sonhei em dar aulas de Inglês, em ficar contente aqui em Teresina, em fazer novos amigos - com minhas recém-adquiridas habilidades sociais (Igor que o diga!).
Fui muito infantil no meu pensamento.
Talvez...
Talvez não interesse aonde você vá.
Você leva seus problemas na bagagem.
Não é como antes, felizmente.
Sinto algo novo... saudade?
Saudade genuína?
Talvez. Não saberia dizer.
Talvez seja algo vindo daquela minha incurável busca por um preenchimento de vazio, que uma vez esteve cheio de pessoas, de amizade, companheirismo, e agora eu só tenho solidão.
Aos poucos leitores do blog, vocês me conhecem, não é? Acho que, se vocês me leem, é porque, no mínimo, se importam comigo... Onde estão vocês?
O que acontece é o que já aconteceu tantas vezes, mas diferente, dessa vez.
Desde que eu assumi como gay - primeira vez que menciono isso aqui, não é? -, eu venho sido abatido por um sentimento esmagador e completamente implacável de que eu nunca vou encontrar ninguém que goste de mim, ou alguém que sobreviva aos meus mil e um parâmetros - mea culpa, inteiramente, eu sei disso, mas, fazer o quê? Se não fosse assim, certamente eu seria uma pessoa completamente diferente.
Preciso que alguém me diga que isso não é verdade... Que existe alguém por aí com meu nome escrito nas costas, sei lá, alguém que tenha interesse não necessariamente no que me interessa, mas que tenha paixão por isso, e que adore conhecer mais do que somente o mínimo, o pouco.
É demais?
Aí eu me olho no espelho e sinto aquela força crescente e de tanta aflição tomar conta de mim, e eu perco a vontade de fazer as coisas.
Não pense que eu estou pensando "ah, todos os meus amigos me abandonaram", não, não.
Se alguém abandonou alguma coisa fui eu.
Mea culpa, de novo.
Eu não sei... Sonhei em dar aulas de Inglês, em ficar contente aqui em Teresina, em fazer novos amigos - com minhas recém-adquiridas habilidades sociais (Igor que o diga!).
Fui muito infantil no meu pensamento.
Talvez...
Talvez não interesse aonde você vá.
Você leva seus problemas na bagagem.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Monólogo -
Vês, agora?
Estava bem aqui
O tempo todo.
Vês o sangue?
Ainda jorra
Mesmo depois de morto.
Vês seus braços?
Tão tensos,
Como num último esforço.
Vês as lágrimas?
Pois cada uma é um pedaço da alma
Pelo ralo.
Vês seu semblante arrasado?
Mais desfigurado pela dor
Que pelos ferimentos.
Vês seus pés descalços?
Como se soubesse
Que lhe roubariam os sapatos.
Vês-te a ti mesmo?
Fazes bem
Muitos são cegos.
Estava bem aqui
O tempo todo.
Vês o sangue?
Ainda jorra
Mesmo depois de morto.
Vês seus braços?
Tão tensos,
Como num último esforço.
Vês as lágrimas?
Pois cada uma é um pedaço da alma
Pelo ralo.
Vês seu semblante arrasado?
Mais desfigurado pela dor
Que pelos ferimentos.
Vês seus pés descalços?
Como se soubesse
Que lhe roubariam os sapatos.
Vês-te a ti mesmo?
Fazes bem
Muitos são cegos.
A Vista da Janela
Minha respiração não muda.
É como se eu estivesse morto e não morto.
É como se...
AAAH!
Grito. somente para sentir meus mudos gritos morrerem naquele vazio.
"That is not what I meant at all.
That is not it, at all"
Ouço uma voz - minha voz? Não sei mais.
É o meu pai, meu irmão, meu sangue, minha alma.
Eu não sei mais.
Meus olhos estão fechados?
Abertos?
Pergunto, tenho olhos?
Estendo mãos invisíveis ao meu mudo rosto sem cor.
"That is not it, at all"
Acho que sinto, falanges geladas.
Vasculhando minha face insensata, grito, grito.
Afundo mais e mais naquela escuridão multi-cor, vermelho-sangue, laranja-vivo.
Afogo-me sem respirar.
"Not what I meant"
Acordo.
"At all"
Olho pela janela do meu quarto. Dia.
Apenas outra quarta-feira.
É como se eu estivesse morto e não morto.
É como se...
AAAH!
Grito. somente para sentir meus mudos gritos morrerem naquele vazio.
"That is not what I meant at all.
That is not it, at all"
Ouço uma voz - minha voz? Não sei mais.
É o meu pai, meu irmão, meu sangue, minha alma.
Eu não sei mais.
Meus olhos estão fechados?
Abertos?
Pergunto, tenho olhos?
Estendo mãos invisíveis ao meu mudo rosto sem cor.
"That is not it, at all"
Acho que sinto, falanges geladas.
Vasculhando minha face insensata, grito, grito.
Afundo mais e mais naquela escuridão multi-cor, vermelho-sangue, laranja-vivo.
Afogo-me sem respirar.
"Not what I meant"
Acordo.
"At all"
Olho pela janela do meu quarto. Dia.
Apenas outra quarta-feira.
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