segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sobre a vida, a morte, e a religião

A vida é uma corrida contra a morte.
É uma corrida eterna, que começa antes mesmo do nascimento - já que podemos morrer ainda no útero de nossas mães. Às vezes nós relaxamos e ela encosta na gente, nos faz sentir a majestosa dor de sua foice pontiaguda. Às vezes nós tropeçamos e ela nos alcança. Pode ter sido uma besteira, um sacríficio, ou uma idiotice. Não importa o quê, ela nunca falha em nos alcançar. Exceto, é claro, nas vezes em que ela não consegue, por estarmos muito na frente, ou por ela estar ocupada demais.
Mas tem gente que confunde isso com bondade divina.
Eu não. Eu penso que esses momentos são puros descuidos-não-tão-divinos assim.
Deus estava muito ocupado dando AIDS para um bebê africano, câncer para pais de família, deixando uma criança ser abusada e prostituída, ou meramente não dando a mínima para nós aqui embaixo, ou sejá lá o que se enquadre no quadro de passatempos dos céus.
Às vezes, ficamos velhos e/ou cansados demais para correr - aviso aos gordinhos como eu - e ela simplesmente chega até nós - e é bom que saibamos o que estamos deixando para trás.
É por esse tipo de coisa que às vezes eu me pergunto sobre o - AVISO: clichê chegando - sentido da vida. A maioria das pessoas nasce, vive, morre, e é esquecida, e é ser esquecido é que realmente matar alguém.
Mas será que não existe alguém por ai, com um pequeno templo para aquele soldado que morreu há tantos anos, na primeira guerra? Será que não existe algum coração eternamente partido pela morte do amado? Nenhum marido fiel enlutado para sempre, de alma ferida pela perda da cobiçada "outra metade"?
E, quando eles forem embora para o grande plano do vazio, alguém vai chorar por eles como eles choravam por outros? Alguém por acaso vai substituí-los no seu luto, e chorar pelos mortos dos outros?
Eu não sei dizer. Eu realmente não sei dizer.
Essas perguntas são o maior motivo para a existência da religião. Essa vã esperança humana de ter, afinal, valido a pena todo o esforço na vida.
"Mas existe o céu dos animais?", pergunta a criança aos pais, olhando para o cachorrinho velho e doente.
"Claro que sim", respondem. Mas eles acreditam nisso? O que nos torna diferentes dos outros animais? Inteligência, DNA, tamanho, raciocínio lógico, fala? Ou somos escolhidos por Deus para sermos assim e pronto?
Você pode ensinar sua religião para uma criança, mas, para ela, Deus vai continuar sendo os pais dela. E um cachorro? Será que ele tem alma, essência? Para um cachorro, Deus é o dono, que provém comida, carinho e abrigo.
E nós por acaso podemos cumprir a tarefa herculeana que é ser responsável por outro ser? Nem sempre.
Nem sempre.

sábado, 17 de setembro de 2011

Space-dye Vest

Essa é a letra de uma das músicas mais bonitas que eu conheço.
Talvez não seja a com melhor ritmo, talvez nem seja a melhor cantada, mas, caramba, essa letra é linda.
Ela foi toda escrita por Kevin Moore, ex-tecladista do Dream Theater.

"Ela foi inspirada por... eu estava folheando um catálogo de moda e vi uma foto de uma modelo com uma peça de roupa chamada 'space-dye vest'. Então, eu me apaixonei pela modelo [risos] e durante aquele minuto eu fiquei obsessivo por ela, e pensei 'por que estou fazendo isso?', e percebi que vinha fazendo isso frequentemente nos últimos tempos. E eu acho que a principal razão pela qual eu vinha fazendo isso é que, isso eu percebi na época, eu vinha de um relacionamento onde eu havia sido maltratado, basicamente, e a situação é que eu ainda não tinha dado tudo que tinha pra dar, então eu estava jogando tudo pra todos os lados, apontando em todas as direções. Foi um caso total de projeção. E esta música é justamente uma tentativa de admitir que eu estou meio perdido. Então é uma música meio sombria. Foi muito catársico."

A banda nunca tocou Space-dye Vest ao vivo em respeito a ele, por considerá-la "a música do Kevin"
Abaixo, eu posto a letra dessa música, uma música que, na minha opinião é o verdadeiro grito dos corações desesperados.

Falling through pages of Martens on angels
Feeling my heart pull west
I saw the future dressed as a stranger
love in a space-dye vest

Love is an act of blood and I'm bleeding
a pool in the shape of a heart
Beauty projection in the reflection
Always the worst way to start


[Barulho de TV,  partes de filmes e novelas]


[Sample is Julian Sands from the film "A Room With A View".]
"But he's the sort who can't know
anyone intimately, least of all a
woman. He doesn't know what a woman
is. He wants you for a possession,
something to look at like a painting or an ivory box.
Something to own and to display. He doesn't want you to be real,
or to think or to live. He doesn't love you, but I love you.
I want you to have your own thoughts and ideas and
feelings, even when
I hold you in my arms. It's our last chance... It's our
last chance..."



Now that you're gone I'm trying to take it
Learning to swallow the rage
Found a new girl I think we can make it
as long as she stays on the page

This is not how I want it to end
And I'll never be open again

[Sample from "The Trouble With Evan", from the Canadian series "The Fifth Estate".]
"...I was gonna move out...ummm...get,
get a job, get my own place, ummm,
but... I go into the mall where I
want to work and they tell me, I'm,
I was too young..."

[Sample is Jim Hill from a news commentary about the OJ Simpson freeway chase.]
"Some people, gave advice before,
about facing the facts, about
facing reality. And this is, this
without a doubt, is his biggest
challenge ever. He's going to have to face it.
You're gonna have to try, he's gonna to have to try and,
uh, and, and, and get some help here. I mean no one can
say they know how he feels."

[Sample from the Conan O'Brien show.]
"That, so they say that, in ya know
like, Houston or something, you'd
say it's a hundred and eighty degrees,
but it's a dry heat.
In Houston they say that?
Oh, maybe not. I'm all mixed up.
Dry until they hit the swimming pool."

[Sample from "The Trouble With Evan", from the Canadian series "The Fifth Estate".]
"...I get up with the sun... Listen.
You have your own room to sleep in,
I don't care what you do. I don't
care when. That door gets locked,
that door gets locked at night by nine o'clock.
If you're not in this house by nine o'clock, then you'd
better find some
place to sleep. Because you're not going to be a bum in
this house.
Supper is ready..."
[estática]

There's no one to take my blame
if they wanted to
There's nothing to keep me sane
and it's all the same to you
There's nowhere to set my aim
so I'm everywhere
Never come near me again
do you really think I need you

I'll never be open again, I could never be open again.
I'll never be open again, I could never be open again.

And I'll smile and I'll learn to pretend
And I'll never be open again
And I'll have no more dreams to defend
And I'll never be open again

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Titleless Cry

It's something one can really only laugh at.
Today, and today only - but I've been having a lot of "todays" lately - , I'm feeling so lonely that I could - oh, so lonely - hug a total stranger and beg for their mercy.
Maybe, I think, I'm just a worthless little crybaby.
Or maybe I'm right.
Maybe I should give up on it already - worthless little crybaby.
Teel me to fuck off, I beg you.
Tell me to man up and go fuck myself.
Forget about me.
In fact, I might have already been forgotten - partially.
In few weeks - little more than a month - , I will have never been here at all.
Let me vanish.
Ash to ash, I'm fucked.
Fuck idiot me. Fuck you.
Let us disappear on that god-forsaken hell-hole we call world.
Oops!
I'm all alone now.
Who's gone?
Me, or all the others?
But I don't have you;
I don't have you.
 
                          o
                          o
                          o

And this shall be
                      
                         my great demise.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

"Independentemente do que diga o seu confiável Timex" - Parte Dois

A lua acima, tão branca e inefável quanto o vento e o escuro céu, encarava a mulher na calçada com a mesma alva indiferença com que olharia qualquer outro.
Mas ela não era qualquer outra.
Era Charlotte.
E tinha algo para fazer. 
Nas suas negras vestes, ela começa a andar, furtiva, aproximando-se mais e mais da casa apontada pelo motorista, calmamente tirando da cabeça todo tipo de pensamento sobre a coisa na ambulância, pondo o objetivo no topo de suas prioridades.
A casa na verdade é um casarão colonial, algo cuja construção datava de pelo menos um século.
Tão antigos quanto o próprio lugar, eram os demônios vivendo ali.
Ou talvez nem fossem demônios.
Talvez nem fossem mais que um.
Talvez só fosse humano. Tão humano quanto qualquer outro.
Ela avançou pela calçada até a porta, numa ladeira inclinada, ainda agindo como uma sombra, olhando para trás em busca de algum perseguidor.
No fundo de sua mente, uma vozinha alertava, gritando que aquilo era errado, que ela deveria fugir, que o que habitava entre aquelas paredes era pior do que qualquer coisa que poderia sair atrás dela, qualquer coisa jamais vista nos seus pesadelos mais alucinantes, qualquer...
A porta da casa se abriu, e o interior dela era fracamente iluminado por um candelabro de parede, dando um ar ruim de mistério - o que havia naquela


(ambulância - no fundo da ambulância)

sombra marcada pelas estantes? Eram
 
(olhos)

objetos não vistos, vasos, plantas, livros incrivelmente velhos. Charlotte-menina tremeu e se escondeu em algum ponto da mente da Charlotte-adulta. Sozinha, ela respirou fundo, adentrando à casa.
O foyer era simples, pequeno, com três portas e um portal que aparentemente dava para a sala de estar; uma escada de destino obscuro, um lustre de velas apagado, deixando a sala iluminada somente pelos dois candelabros que ali estavam.
Ela fechou a porta e começou a andar silenciosamente, passando pelo portal para a sala de estar, fechando o portal de duas portas delicadamente no caminho, dando de encontro com uma sala iluminada somente por uma lareira acesa, com muitos livros nas estantes, algumas plantas, uma mesa com três cadeiras em volta.
À frente da lareira, uma poltrona e um sofá.
Na poltrona, um velho a esperava fumando bem devagar um charuto, esperando por ela.
"Sente-se, minha criança", ele diz, e ela se senta obedientemente no sofá, olhando para o rosto dele bastante confusa. Aquele velho não era nem um pouco o que ela esperava encontrar - o que lhe foi dito que ia encontrar. Ela sentiu o papel no bolso da calça - e agora?.
"Você está aqui por uma história, não é?", continuou, mas ela não sabia se queria ou não ouvir o que o homem tinha para falar. "Pois bem, vou contar a minha história - a única história que eu conheço, a única que importa.
"Foi há tanto tempo atrás que às vezes eu nem sei se aconteceu de verdade, ou se eu sonhei tudo isso. Nesses dias, basta que eu me olhe no espelho, para que eu lembre que sim, aconteceu". Charlotte notou então que o homem tinha várias marcas de queimaduras no rosto e nas mãos, como se tivesse sobrevivido a algum incêndio horrível no passado.
"Foi o verão 1954, sessenta anos atrás, não é?
"O verão de 54 ia com tudo - a música que tocava nas rádios era o bom e velho Clifford Brown, Joy Spring, eu me lembro bem. Depois da segunda guerra, as pessoas queriam mais diversão, esquecer aqueles dias negros e tristes da história do mundo, mas ficava difícil relaxar com o perigo constante de uma invasão comunista, sabe?
"Clifford Brown - você já ouviu aquele homem errar uma nota? Pois eu lembro bem como se fosse ontem, nós tínhamos ido ao show dele, e tinha sido ótimo.
"Por 'nós' eu digo, claro, eu e minha mulher.
"Doce, doce, Charlie".
Nesse momento, Charlotte se endireitou no sofá, sentindo um calafrio percorrer o corpo todo, apesar de eles estarem sentados bem em frente à lareira.
"Doce, doce, Charlie".

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

I'm still alive, my little druz'ya :)

É isso que eu gostaria de dizer a todos os meus leitores.
"Ainda estou vivo", um tapa na cara de quem desejava pelo contrário u.ú
Recentemente, minha vida tem estado muito bem obrigado.
Não sei por que, mas eu venho me sentindo mais "de boa", na falta de expressão melhor.
Resolvi ver o mundo de um jeito menos ressentido.

"Gather ye rosebuds while ye may.
Old time's still a-flying,
And this same flower that smiles to-day
to-morrow will be dying

[...]

Then be not coy, but use your time,
And while ye may, go marry:
For having lost but once your prime,
You may for ever tarry. 
"
"To the Virgins, to Make Much of Time", Robert Herrick

E ainda tem uma pintura para ilustrar, de nome "Gather ye rosebuds while ye may", Whitehouse





E é com essa mensagem que eu deixo vocês para enfrentar mais uma semana, brava e heroicamente, ó ser gauche na vida.

P.S.: Feriado vindo, vou postar a continuação de "Independentemente do que diga o seu confiável Timex" :)
E mais um mini-conto - ou quem sabe acabe nem sendo tão mini assim, nakonets.

TALVEZ

Do zvidaniya para vocês, dobryi dyen, e farewell.

P.S.2: Sim, estou treinando meu russo u.ú
P.S.3: Falando em russo, descobri uma banda russa super-legal - que canta em inglês -, chama-se Mechanical Poet, ouçam ai, depois, quando tiverem tempo

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Porto e a Luz da Lua

"Ok, o meu psicólogo me mandou fazer isso", disse ele, sentado num sofá de uma sala de estar bem iluminada, com o som das ondas quebrando na praia, segurando um gravador. "Tudo começou três anos atrás, quando eu e minha família - minha mulher e minha filha - viajamos até a essa casa portuária alugada, para passarmos um fim-de-semana sozinhos, sem a confusão da cidade", dizia.
"Nós nunca tínhamos tempo um para o outro - eu e meu trabalho nas relações públicas de uma empresa grande, Ana na faculdade. Cláudia no meio, pobrezinha - nós mal a víamos.
"Por isso, essa viagem de fim-de-semana, que nós programávamos há tanto tempo, era tão especial".
"Saímos no sábado bem no começo da tarde, Cláudia radiante com a viagem de ferry boat que faríamos, Ana, minha esposa, sentada ao meu lado, dormindo a viagem inteira.
"Éramos uma família... Feliz, e aquele fim-de-semana prometia-nos um bom descanso", um suspiro, não acreditando nas próprias palavras. Na sua cabeça, o psicólogo, para quem estava fazendo aquela fita, pedia a ele pela verdade, e só a verdade. Ninguém o julgaria mais.
Ele pensa, enquanto fala ao gravador, no quanto daquilo é verdade. Eram mesmo uma família meio desencontrada mas feliz? Não éramos um casal em decadência, um casal que jamais deveria ter sido. Um casal que teve uma filha para salvar um casamento em pedaços.
Ele tinha uma amante. Não era um emprego que levava a maior parte do tempo - era a vida dupla dele. Seu desejo interno de sair de casa e nunca voltar. E ela não sentia o mesmo?
Então porque ainda estavam juntos? Sua amante desejava ser a única dele, queria ver-se livre de Ana.
Mas havia Cláudia, oh, tão inocente, tão pura, presa com um casal de monstros que só lhe permitiram a existência por puro egoísmo. Medo. Comodismo. Não queriam encarar o fracasso de frente.
Depois do acontecido, ele nunca mais falou com a amante.
A culpa o corroia por dentro.
David, redento, agora sentava no mesmo sofá que sentara três anos antes, e chorava, com o gravador jogado num canto, ainda gravando, esperando que ele retomasse donde havia parado. Ele respira fundo, enxuga os olhos, firme e confiante. Olha o gravador jogado no canto, e decide continuar - não iria desistir ali, custasse o que custasse.
"Não... Não éramos felizes. Exceto por Cláudia - ela estava sempre sorrindo.
"Eu e Ana, nós... O amor já havia acabado. E todo dia somava-se a uma pilha de decepções", suspira, "Essa viagem era nosso ópio, nossa ilusão de que tudo estaria bem. Mas não estava".
"Mas, voltando ao carro, trouxemos, também, o Golden Retriever da minha filha, Thor, que estava balançando a cauda, contente da vida, com a cabeça do lado de fora do carro".
"Chegamos em pouco tempo - Cláudia logo se cansou da viagem no ferry, e foi dormir também com Thor aninhado no colo; eu fiquei dirigindo sozinho, aproveitando a calmaria".
Ele se ajeitou no sofá, sabendo bem demais que estava perto da parte mais difícil. "Vá com calma, David, vá com calma e não se preocupe com o tempo - apenas chegue lá", o psicólogo dizia, mas ele mesmo não estava seguro daquilo. Em tudo que olhava, só havia lembranças, em tudo que tocava, podia até sentir o calor delas lá, como se elas tivessem acabado de estar lá; em tudo que cheirava, vinha-lhe o perfume de Ana, o cheiro de criança de Cláudia, até mesmo o cheiro de Thor. Ele estava sozinho na casa portuária, sentado no sofá, divagando com o gravador ligado, gerando um silêncio de vários segundos na gravação. De repente voltou a si, prosseguindo com a gravação, afastando aqueles pensamentos da cabeça.
"Assim que chegamos, desfizemos as malas e fomos até a varanda, conversar. Cláudia e seu cachorro foram correr na praia, enquanto eu e Ana dividíamos uma boa margerita, só para passar o tempo. Naquele momento, tão simples, dividindo uma bebida com a minha mulher no fim da tarde, conversando. Será que eu ousei pensar que tudo se resolveria? Será que ela pensou assim?
"Eu penso, será que, à noite, faríamos amor como nunca havíamos feito antes, e, de manhã cedo, comeríamos o pão um do outro, sorrindo como dois adolescentes?
"Acho que eu cheguei a pensar tanta tolice. Mas, eu me pergunto, será que ela também pensou?".
Um vento frio veio da porta, anunciando a todos os moradores que a tarde estava no seu final, e que a noite seria gélida.
"Almoçamos o que havíamos trazido da cidade - hambúrgueres e refrigerante -, o que também constituiria o nosso jantar, apesar de Ana ter reclamado. 'Isso engorda muito! Vamos comer isso aí amanhã também?', ela disse, mas acabou comendo também.
"Infelizmente, não foi isso que almoçamos no dia seguinte".
Estava entardecendo, e David estava se cansando daquilo tudo, e a noite estava subindo por suas coxas, espreitando a chance de invadir de vez o seu espaço. Mas ele se lembrava das palavras do psicólogo, que dizia para ele ir em frente e não desistir sem ter coberto o máximo possível. Continuou:
"A noite caiu bem rápido, provavelmente porque estávamos nos divertindo bastante, então nós jantamos e nos reunimos na sala de estar, onde eu estou sentado agora. Cláudia se sentou no chão com Thor; eu e Ana ficamos neste mesmo sofá, abraçados.
"Minutos se passaram enquanto nós conversávamos - sobre tudo, sobre nada, jogar conversa fora -, e nós nem percebemos o tempo passar, rindo das brincadeiras da garota com o cachorro; eu provavelmente ainda estava pensando na nossa possível noite porvir".
Dessa vez ele desligou o gravador antes de voltar a falar.
Essa era realmente a parte difícil, a parte em que tudo foi ao Inferno, a parte que até hoje lhe assombrava os sonhos.
Tomando coragem, num esforço quase hercúleo, apertou o botão e voltou a gravar.
"De repente, uma música soou por toda a casa.
"Era uma sonata de piano, triste, melancólica, que ia e vinha em tons baixos, quase como ondas no mar
"Ficamos olhando em volta, procurando a fonte de tal música, com medo.
"A música era ao mesmo tempo bela e terrível, uma música devastadora, cruel e fria, numa melodia que só absorveria completamente o momento se...".
Parou, percebendo algo - tão simples tão óbvio.
"A energia caiu de repente, e a sala foi tomada pela luz da lua - cheia, que brilhava lindamente sobre o mar. Cláudia pulou para o sofá conosco e se encolheu, com medo. Estávamos todos com medo. Ana me olhou com um ar desesperado. 'Vá ver o que está errado, David, por favor!', aqueles olhos suplicavam.
"A luz da lua banhava a sala de um jeito tão fúnebre e sombrio, acompanhada pela música, numa ode demoníaca.
"Foi quando Thor saiu em disparada para a porta. 'Não, garoto!', gritei, pulando atrás dele. Cláudia começou a chorar no colo de Ana.
"A música continuava em seu tom depressivo, porém belo, enquanto eu corria para alcançar o cachorro.
"Quando eu cheguei à praia...", ele diz, mas não termina, os olhos cheios de lágrimas. A noite agora um pouco mais profunda do que antes, um pouco mais letal. Soluçando, ele esfrega os olhos e volta a narrar.
"Quando... Quando eu cheguei à praia, Thor estava parado olhando o mar. Eu parei atrás dele, estacando de repente, como se já soubesse o que estava porvir. Se eu soubesse, porém, teria enlouquecido, e morrido na minha loucura.
"Havia uma névoa forte cobrindo o mar, e, além da orla, não se via nada. A luz da lua refletia na água com tons enegrecidos.
"Era um barco simples, de madeira, com uma única pessoa pilotando. Era (o que parecia ser) um homem, muito alto, esguio, usando uma capa preta sem capuz, de manga comprida, que vinha até a cintura e se abria no sino que lhe cobria as pernas.
"Nunca pude ver o rosto dele, pela escuridão e pela névoa, mas vi o que estava em suas mãos.
"Era um... Um... Um cajado longo, perigoso, poderoso, como a própria morte e sua foice, ou algo até pior.
"Eu já tinha ouvido aquela música, e ouço-a mais ainda desde então, nos meus sonhos. Nos meus sonhos aonde aquele homem no barco vem e me chama para ele. 'Mas é muito fundo aí', digo, sentado na areia da praia, fraco. Cláudia aparece no barco, pondo os pezinhos na água. 'Não é, não, papai, é bom'. Ah, e eu resisto, eu resisto, eu nunca vou, eu sempre fico na praia, suplicando que eu acorde. E eu acordo, mas essa música... Continua comigo, o dia todo. Às vezes ela vai embora, mas sempre volta.
"Então Thor corre até o barco como se tivesse sido chamado - e eu acredito que tenha sido.
“'THOR! NÃO!', Cláudia grita, e eu percebo que estão as duas atrás de mim, na porta de casa, abraçadas. Ela se solta da mãe, e passa por mim, impotente - oh, eu ainda posso sentir o vento passando por mim enquanto ela corria; como eu me arrependo de não ter-lhe agarrado.
"Thor está nadando fundo agora, e ela ia atrás, nadando. Ana correu e gritou 'FAÇA ALGUMA COISA, DAVID! FAÇA ALGUMA COISA! A SUA FILHA VAI MORRER!', e aquilo quebra a minha paralisia. Ana está nadando atrás de Cláudia com toda a força, e eu faço o mesmo, atrás das duas.
"Thor nada sem prestar atenção ao desespero da garota atrás dele, sem olhar para trás, antes de desaparecer sob o tapete de água, e não voltar. Cláudia mergulha para tentar pegá-lo, e Ana vai atrás.
"Cláudia volta à tona, e eu nado o mais rápido possível para ela, e ela grita, ela grita. 'PAI! MÃE! O THOR FOI LEVADO!', chorando, 'MEU CACHORRO!'. Ela submerge de repente, como se puxada por algo, algo feio e horrível - pelos afogados e seus úmidos ossos putrefatos. Ana grita por ela, até que é puxada também".
Eu agarro a mão de Ana e puxo o quanto posso. Debaixo d'água, posso ver uma mãozinha branca iluminada pela luz da lua, cujo corpo está oculto pela escuridão absoluta do fundo do mar; a mãozinha agarrada ao tornozelo da minha mulher, puxando. "'TIRE-NOS DAQUI, DAVID! TIRE-NOS DAQUI!', ela grita, tentando respirar, enquanto eu puxo, puxo, puxo até quase rasgar os braços.
"Mas eu estou afundando junto dela, sendo arrastado para aquelas profundezas obscuras que sabe-se lá o que guardam.
"E eu estou morrendo de medo. Estou morrendo, morrendo de medo.
"E, com um último puxão, eu solto".
Ele pára de falar, chorando em grandes goles de ar, se sentindo miserável.
"EU SOLTEI, CARAMBA! EU SOLTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI! EU SOLTEI A MÃO DELA, EU DEIXEI MINHA MULHER E MINHA FILHA SE AFOGAREM PORQUE EU SOU UM MALDITO FRACOTE!"
Sob a luz da lua, David grita, grita, grita, até sentir a garganta rasgar.
Mas ele tem um dever, o dever de ir até o final.
Se recuperando do ataque, ele continua.
"Eu nadei desesperadamente até a praia, virei-me, e vi o homem no barco sorrir. Eu não sei como. Àquela distância, não devia ser possível. Mas eu o vi sorrir um sorriso psicótico ao som da música.
"E desapareceu na névoa, tal como veio.
"Eu não sei quando a música parou de tocar. Desmaiei apoiado na parede da casa portuária, olhando o mar. No dia seguinte, peguei meu carro e saí de lá. Voltei para casa, onde comecei a ter os sonhos em que o homem no barco aparecia.
"Fiz terapia e quase fui internado. Meu psicólogo disse para eu voltar e encarar meus medos, perceber que nada daquilo havia sido real, que o cachorro da minha filha correu para o mar, e ela foi junto, acabando por afogar os três. Os corpos nunca foram achados, mas... Eu não sei". 
Desliga o gravador e percebe que é noite. Percebe a névoa sobre o oceano. 
Percebe a luz da lua cheia - cheia de vida e cheia de morte.
A música começa a tocar, vinda de qualquer lugar. De repente, ele sabe que música é aquela.
"Moonlight Sonata", diz, com um pequeno sorriso.
Ele sai e vai até a praia, a casa na completa escuridão.
Da névoa, o conhecido barco aparece.
O homem está lá, como esteve naquele dia, como se ainda fosse a mesma noite.
E o chama.
Cláudia e Ana aparecem, com Thor do lado delas, e, naquele momento, ele se esquece de tudo - elas estão lá, vivas.
Elas o chamam, sorrindo sorrisos que deviam estar mortos há tanto tempo.
Mas ele não percebe isso - elas estão vivas e bem, e isso é o que importa -, e ele vai.
Ele entra na água andando, e segue andando até não poder tocar o fundo.
A música finalmente chega ao final, e ele está sorrindo.
Sob a luz da lua, ele se afoga.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Enchendo linguiças


Esta é a notinha que emitiram em Zimbábue (clique para aumentar).
Não, você não leu errado, essa é uma nota de CEM TRILHÕES DE DÓLARES zimbabuanos rsrs
100.000.000.000.000,00 Z$

The Zimbabwean Dollar is the currency of Zimbabwe. The currency code for Dollars is ZWD, and the currency symbol is Z$. Below, you'll find Zimbabwean Dollar rates, a currency converter, Zimbabwean Dollar News and more. You can also subscribe to our currency newsletters with daily rates and analysis, or take ZWD rates on the go with our XE Mobile apps for your iPhone, BlackBerry, or even your regular phone.

Notice: The Zimbabwe dollar has been suspended indefinitely.
In January 2009, the Reserve Bank of Zimbabwe permitted the use of foreign currency in Zimbabwe in response to an economic decline that caused inflation levels of 5 billion percent. By April 2009, the Zimbabwe dollar was suspended indefinitely; the government now uses the South African Rand, the United States Dollar, and the British Pound. For more information, read the BBC's "Zimbabwe dollar 'not back soon'".
Sim, é isso que vocês leram. Em 2009, a inflação chegou a níveis tão altos que nem uma nota de 100 trilhões era absurda por lá.
"Mas, Matheeeeeeeus, por que cargas d'agua você está postando essa inutilidade???"
Ora, agora que vem a parte polêmica, jovem gafanhoto.
Sabem quanto essa nota valia antes do Dólar Zimbabuano fechar por completo?
Dez reais?
Cinco?
Menos?
Segundo o XE - The World's Favorite Currency Site -, esse era o valor:

100,000,000,000,000.00 ZWD =451,033,263,664.24 BRL
Zimbabwean Dollar Brazilian Real
1 ZWD = 0.00451033 BRL 1 BRL = 221.713 ZWD

Agora, por favor, alguém me explique como uma moeda visivelmente falida poderia valer tanto?
Sério.
Se essa nota ainda estivesse rodando, eu estaria voando para Zimbábue agora, para pegar algumas dessas no chão, sei lá u.u



P.S.: Gente, sei que prometi alguns posts ai, mas, eu gostaria de dizer que não deu para fazer nada nesses dias (o que é parte da razão de eu estar postando essa cultura inútil e desinteressante - eu só precisava postar algo -,  prometi-me algo polêmico, mas todas as polêmicas já não eram tãããão polêmicas assim, então eu vi isso no 9gag, então resolvi postar, ok?), e ontem o servidor do Blogger resolveu dar problema, então nada pude escrever ontem à noite. Vou fazer um pacto comigo mesmo e postar algo de noite!
Não esperem acordados, eu só funciono de madrugada.